domingo, 31 de maio de 2020

A ESCADA ESPIRAL
João Cândido Martins


1
Após se formar em Medicina no Rio de Janeiro no ano de 1885, Floriano Cardoso se instalou em Curitiba, sua cidade natal, onde passou a clinicar na Santa Casa de Misericórdia. Era o único hospital de uma cidade que, após a inauguração da estrada de ferro, crescia de forma descontrolada. Liderados pelo velho doutor Bloch, cinco jovens recém-formados compunham a equipe médica. Floriano era especializado em ortopedia, mas no cotidiano se via obrigado a atender toda sorte de situações, o que não chegava a ser um problema, pois ele era um apaixonado pela Medicina.

Sempre gostou de ajudar os outros, de ser útil ao próximo. A escolha pela profissão de médico foi natural e, embora aqueles anos de estudo tenham lhe proporcionado eventuais fios de cabelo branco, ele tinha a consciência de que fizera a opção certa. E, agora, ali estava ele, naquele prédio cuja aparência gótica, conforme dissera alguns anos antes o viajante Bigg-Whitters, lembrava mais um hotel inglês da metade do século XIX, do que um hospital. A construção se destacava naquela campina que anos depois seria a atual praça Rui Barbosa. Era algo único na paisagem de Curitiba naquela época. Floriano se sentia bem no local. Em poucos dias já estava familiarizado com as dezenas de salas, corredores e escadas.

Floriano nunca escondeu suas convicções abolicionistas, mesmo que isso tenha provocado antipatia por parte de dois médicos colegas seus. Essas divergências não interferiam na rotina de trabalho, mas criavam uma delimitação, o que não chegava a incomodar Floriano, pois, embora fosse um humanista, nunca foi de apegos.

De qualquer forma, tinha a simpatia do Dr. Bloch, pois era o único da equipe a falar alemão. Floriano e o velho médico conversavam durante horas sobre Goethe e E.T.A. Hoffmann. E não passava despercebido a Bloch o fato de que Floriano estava aos poucos se tornando uma referência entre a população. Ele era eficiente e gentil. Tratava a todos de forma equânime. Do mais miserável escravo ao mais poderoso industrial da erva-mate. E também foi muito prestativo ao ajudar, por duas semanas, os médicos em Morretes, durante a infestação de varíola que se deu em 1885 naquela cidade.


2
Uma noite, após horas tentando inutilmente salvar um infartado, Bloch e Floriano se sentaram próximos a uma janela para tomar café e fumar. O velho fez alguns comentários sobre o paciente recém-falecido e, em seguida, passou a falar de outros enfermos. Ele pediu a Floriano que se encarregasse dos gêmeos subnutridos que haviam dado entrada naquela tarde. Pela primeira vez o jovem disse não.

“Como assim?”, perguntou Bloch. “Você nunca recusou um paciente antes.”

Floriano acendeu outro cigarro e passou a falar em alemão.

“O que acontece, Dr. Bloch, é que eu também fui gêmeo. Meu irmão morreu no parto. Meu pai me disse que a culpa foi minha, que o peso do meu corpo prensou o corpo do meu irmão e tudo se precipitou.”

O velho levantou a mão e disse também em alemão: “Seu pai era um leigo, não era médico, como ele pode ter tanta certeza? Pode ser que algum médico tenha dito isso a ele, mas não há como saber, portanto não tem por que você se culpar de nada.”

“Não é tão simples, doutor”, respondeu Floriano. “Convivo com essa culpa desde que me conheço por gente. Infelizmente não consigo lidar com gêmeos. Sei que fiz uma promessa de sempre tentar salvar vidas, mas não me peça pra fazer isso.”

Ambos ficaram em silêncio. Só se ouvia o barulho da chuva caindo de forma regular nas calhas do prédio. O velho apagou o cigarro e, levantando-se, convidou Floriano para ver uma coisa. Eles entraram por um dos corredores laterais e, de repente, o velho Bloch abriu uma porta que nunca tinha sido vista antes por Floriano.

“Que lugar é esse doutor?”

“Você vai ver”, respondeu o velho.

No centro de uma ampla sala vazia uma escada em espiral se erguia para além do teto.

“Temos de subir”, disse Bloch.

A escada parecia muito antiga. Era evidente que fora construída com uma madeira de altíssima qualidade. E era larga: duas pessoas caberiam em pé uma ao lado da outra nos seus degraus. Floriano seguiu Bloch que, apesar da idade, se locomovia com certa rapidez. A escada dava acesso a outra sala ampla. Mas esta não estava vazia.

Deitada em uma cama cirúrgica, uma mulher em avançado estado de gravidez gemia, enquanto era atendida por duas enfermeiras. Floriano levou menos que um segundo para reconhecer sua mãe. O jovem médico segurou Bloch pelos ombros e perguntou em tom incisivo:

“O que é isso? O que significa essa cena, esses atores? Você já sabia da minha história antes de eu contar?”

O velho Bloch disse que não sabia de nada e que aquelas pessoas não eram atores.

“Não é o momento de você me perguntar como isso está acontecendo. Simplesmente aproveite a oportunidade, vá lá e salve o seu irmão.”

“Isso é loucura” interrompeu Floriano, “eu sou um homem da ciência, não acredito no sobrenatural.”

O velho retorquiu: “Tudo bem, você pode descer a escada e voltar pra chamada realidade, mas vai viver cada um dos seus dias pensando em como teria sido bom salvar a vida daquele bebê.”

Floriano estava confuso. Não tinha ideia do que significava tudo aquilo, mas sentia-se muito tentado a proceder a operação. O velho o olhava enquanto sua mãe se contorcia na cama. Respirou fundo e foi em direção à pia para lavar as mãos e proceder o parto. Era estranho ver o rosto de sua mãe naquelas circunstâncias. Ela nunca o acusara de nada, mas também não impediu seu pai de fazê-lo. Vestiu a máscara e as luvas e tentou não a encarar muito.

Realmente um dos bebês estava pressionando o outro, mas com um sutil movimento das mãos, Floriano resolveu a situação. Os dois bebês estavam vivos. Olhou em direção a Bloch que durante o procedimento ficou parado ao lado da escada espiral, mas ele não estava mais lá. As enfermeiras retiraram os bebês e conduziram sua mãe para outra sala. Floriano ficou sozinho. Pensou em ir atrás das enfermeiras, mas lembrou que estava numa realidade diferente. Resolveu voltar.

A escada parecia mais escura do que antes, não era possível ver o seu fim. Floriano começou a descer. Lembrava que a escada em espiral fazia umas três curvas até chegar à sala do parto. Mas ele já tinha descido muito mais, e aquilo parecia não acabar. Começou a ficar nervoso, mas continuou descendo a escada até ficar imerso no breu. Ponderou se deveria continuar, mas olhando para cima, já não via o andar onde estava. Resolveu continuar a descer, até que depois de várias voltas acabou chegando à sala original. Encontrou a porta e saiu rapidamente daquele lugar. Como precisava respirar ar fresco, dirigiu-se ao jardim da Santa Casa. No caminho encontrou Bloch.

“Doutor, deu certo, salvei o bebê e a mim.”

O velho alemão deu uma tragada em seu cigarro e disse em português:

“Quem é você?”


3
Floriano andou pela cidade por um bom tempo, mas as pessoas não o reconheciam. Seus pacientes, pessoas a quem salvou a vida, diziam nunca tê-lo visto. No final da tarde, sem entender nada, entrou numa taverna qualquer. Pediu um vinho e depois de acender um cigarro ficou tentando imaginar o que poderia ter acontecido. Foi quando uma moça o abordou.

“Floriano? O que está fazendo aqui? Seu irmão está preocupado.”

“Meu irmão?”

“Sim, seu irmão Eduardo. Está tudo bem com você? Por que você está vestido de médico?”

Aos poucos Floriano conseguiu extrair as informações. Seu irmão, Eduardo Cardoso, era um empresário do ramo da extração e exportação de mármore. Ostentava o título de Barão da Cachoeira. Era conhecido por ser o maior proprietário de escravos do sul do Brasil. Ele, Floriano, era sustentado pelo irmão e morava num dos quartos do palacete do Barão, na rua Comendador Araújo. Tudo isso deixou Floriano chocado, e ele ficou por alguns instantes sem saber o que fazer. Até que ela o chamou para que voltassem para o palacete, pois estava na hora da janta.

“Você mora no palacete?”, perguntou o médico.

“Sim, eu e as meninas, você sabe. Acho que você bateu a cabeça.”

Eduardo não estava presente no jantar, mas as meninas estavam. Todas eram belas e sedutoras, algumas andavam seminuas.

“Que lugar era aquele?”, perguntava-se Floriano.

Tentou comer, mas não sentia fome. Queria ver seu irmão, ver seu rosto, ouvir sua voz. Entender o que o levou a se tornar um escravagista e tentar, se possível, transformá-lo, fazê-lo ver o erro que é ser dono de vidas humanas. Pelo menos era essa sua intenção até o encontro com Eduardo, que aconteceu à meia-noite.


4
“Ah, é você”, disse Eduardo. “Encoste essa porta pra não apagar as velas. Andou sumido. Que roupas são essas? Vai operar alguém?”

Foi como olhar um espelho. Floriano fitou o irmão que nunca vira antes observando cada detalhe do seu rosto, da sua voz, dos seus movimentos. Mas não havia tempo para abraços. “Quero saber como você se tornou o maior proprietário de escravos da região sul do Brasil”, disse Floriano.

Eduardo o olhou por baixo dos óculos e acendeu seu cachimbo. “Qual o problema? Você nunca se importou com isso. Pelo contrário sempre usufruiu do trabalho dos escravos sem dizer um muito obrigado nem a eles nem a mim.”

"Não é esse o caso, eu mudei de ideia quanto a isso. Acho que você deveria reavaliar, repensar essa situação. São seres humanos e não venha me dizer o contrário", insistiu Floriano.

Eduardo ouvia as palavras do irmão enquanto olhava fixamente para o mosaico no tapete persa que comprara no ano anterior. Após uma pausa, encarou Floriano e disse: "Em breve os escravos serão libertos, isso já é notícia corrente. Questão de alguns anos. Mas não tem problema, porque se a monarquia cair, o novo governo republicano vai precisar manter a economia girando e, pra isso, eles vão ter de estimular, e até mesmo ampliar a política de imigração. Mesmo que Dom Pedro II saia de cena, e nosso estilo de vida mude de alguma forma, mão de obra barata não vai faltar. Isso significa que você vai poder continuar com a vidinha que leva desde que éramos crianças". 

Eduardo tragou o cachimbo com reflexão e, soltando a fumaça, continuou: "Não crie caso, Floriano, não servem em você as roupas de libertário. Prometi aos nossos pais que eu ia cuidar de você, e vou cumprir a promessa. Você sabe que tem as minhas meninas à disposição, tem cama, tem almoço, jantar, tem o que você quiser. Só não me incomode." Quando Floriano ia falar, Eduardo o interrompeu: "Se você não tem mais nada a dizer, peço que se retire, porque preciso resolver algumas coisas. Feche a porta quando sair". Floriano percebeu que seria inútil tentar convencer o irmão e resolveu deixá-lo.

Saiu do palacete e, quase que instintivamente, caminhou em direção à Santa Casa de Misericórdia. O lugar estava vazio. Floriano sabia que Dr. Bloch não estaria ali naquela noite. Entrou furtivamente no prédio e, sem ser percebido, andou pelos corredores internos chegando ao local onde o velho médico o levara no dia anterior. Abriu a porta e lá estava a escada espiral.

O mesmo cheiro de madeira antiga dominava o amplo salão. Galgou degrau por degrau até que chegou ao andar superior, onde esperava encontrar novamente a cena de sua mãe com as enfermeiras. Pretendia observar sem fazer nada, deixar os eventos acontecerem naturalmente sem sua intervenção. Quem sabe, isso poderia reverter as mudanças. Mas quando Floriano chegou, não viu sua mãe.

Após o fim da escada, ele estava novamente no escritório de Eduardo, do qual acabara de sair. Eduardo estava sentado à escrivaninha, escrevendo. Floriano entrou com cautela.

“Ah, é você”, disse Eduardo. “Encoste essa porta pra não apagar as velas. Andou sumido. Que roupas são essas? Vai operar alguém?”

Floriano teve a sensação de que entendeu o que deveria ser feito. Viu um pequeno busto de minerva em mármore sobre a mesa do irmão. Aproximou-se, segurou o objeto com a mão direita e desferiu dois golpes contra a cabeça de Eduardo que morreu já na primeira pancada. Floriano deixou o corpo caído no chão e saiu do palacete em direção ao pequeno estábulo no fundo da propriedade. Escolheu um cavalo e foi embora sem saber ao certo para onde.






ROSA
Foto e Edição: João Cândido Martins (2005)















TODOS OS INFINITOS
João Cândido Martins

1
Tive duas experiências teatrais na vida. Numa delas, no Colégio Paranaense, encarnei uma abóbora. Tentei empregar algumas técnicas teatrais de Stanislavski e Artaud, mas minha abóbora só dizia uma frase: "todas as frutas devem ser lavadas antes de serem comidas". Diante dessa limitação, tentei dizer a fala como Charles Bronson faria. Não sei se eu consegui convencer alguém de que eu era um cara durão vestido numa roupa de abóbora, mas tenho a certeza de que nunca antes na história do teatro, uma abóbora foi tão visceral.

O outro papel que interpretei foi o de Deus, ou pra ser mais exato, da voz de Deus. Nesse caso eu também só dizia uma frase: "vocês estão todos condenados". Na hora, eu falei a frase pelo microfone e, em seguida soltei a risada do Orson Welles em O Sombra. O pessoal não gostou muito.

O garoto ao meu lado na foto da abóbora se chamava Cristiano. O cara era um furacão, batia em todo mundo, jogava bola, escalava as árvores mais difíceis, colocava tachinhas e colas nas cadeiras, foi o primeiro garoto da turma a namorar uma menina, sabia jogar baralho e também foi a primeira pessoa que vi colar numa prova.

Um dia brigamos, não lembro o motivo. Provavelmente futebol, pois ele era coxa branca e eu, por influência do meu pai, atleticano. Ficamos sem nos falar um tempo e, como ele era o capitão do time de futebol, fui automaticamente excluído. Sem os amigos habituais, resolvi conhecer melhor o interior do Colégio Paranaense, um prédio majestoso do começo do século XX, que deu origem ao nome do bairro Seminário, no que, à época, era a região sul de Curitiba. Foi caminhando pelos corredores do colégio que conheci a biblioteca, onde por indicação da bibliotecária, pela primeira vez na vida emprestei um livro: "Memórias de um Fusca", do Orígenes Lessa.

2
O colégio era Marista, isto é, católico. Então tínhamos atividades religiosas. Como eu estava andando sozinho pelo colégio e meio sorumbático, fui convidado por um dos religiosos que trabalhavam lá a assistir um ensaio do coral de crianças. Eu nem sabia que o colégio tinha um coral. Fui ver. De cara me apaixonei por uma das meninas que compunham o grupo, eu nunca tinha a visto antes. Eles cantaram alguns temas, mas eu só conseguia contemplar meio embasbacado a menina que tinha uma voz impressionante pra idade.

Entrei no coral e fiquei aguardando o momento certo de abordá-la. Nesse meio tempo, ensaiei com eles três músicas: a versão que Edu Lobo e Ferreira Gullar fizeram para o "Trenzinho do Caipira", de Villa-Lobos (tema que eu usaria como vinheta de um programa sobre MPB que apresentei na Rádio Educativa ali entre 97 e 99); "Bola de Meia-Bola de Gude", da parceria Fernando Brant/Milton Nascimento e o "Hino a Marcelino Champagnat", que era o patrono dos Maristas. Cantamos tanto essas músicas, que cheguei a decorar o Hino.

"Champagnat da juventude
Pai, amigo e professor
Guia sempre nossos passos
No caminho do Senhor"

Por alguma razão, eu trocava "amigo" por "amante" (palavra que eu nem sabia o que significava, mas devo ter lido em alguma notícia criminal). Quando os ensaios acabavam, a menina saía rápido e eu nunca tinha a oportunidade de falar com ela. Até que houve uma excursão ao planetário no Colégio Estadual e a turma dela foi com a nossa no ônibus. Não consegui sentar ao lado dela na condução, mas no planetário, eu me posicionei à sua direita. Ela me olhou e sorriu. Pensei: "que beleza, posso dizer qualquer bobagem que ela não vai ligar, já está na minha".

Falei alguma coisa como "que legal, vamos ver o espaço". Ela me olhou e disse: "Não tem como ver o espaço, ele é infinito, você não sabia?" Fiquei em silêncio sem saber bem o que dizer e soltei "se o infinito fosse uma coisa, eu te dava de presente". Ela riu e respondeu: "então você está com um problema, porque eu quero todos os infinitos". A luz estava prestes a apagar e alguém a chamou pra sentar numa cadeira lá do outro lado. Ela levantou e foi. Quem chamava era Cristiano. Sempre ele.

3
Estávamos no dia 16 de abril. O professor José Luis que apresentava o Planetário (e que eu reencontraria anos depois no Colégio Militar) perguntou se alguém fazia aniversário naquele dia e eu levantei a mão timidamente. "Em que ano você nasceu?", perguntou ele. Respondi que em 1973, então ele regulou os aparelhos para mostrarem como foi a noite de 16 de abril daquele ano. O céu (a representação do céu na abóbada do planetário) foi quase que preenchido por riscos luminosos rápidos. O professor explicou que naquele dia perdido em 73, houve uma intensa chuva de meteoros que provinham de vários pontos do universo. Um fenômeno que acontece a cada sei lá quantos mil anos. "Você foi um privilegiado", comentou o astrônomo.

Quando saímos do prédio do Planetário, resolvi fazer um xixi atrás do ônibus, coisa de criança. Estava ali tranquilamente quando senti que alguém segurava meu braço com força. Era Cristiano. Ele perguntou com raiva: "Acho que você tá querendo chegar na minha namorada". Ele era um pouco mais alto que eu, mas não era muito encorpado. Respirei fundo, fiquei de frente pra ele e apliquei, sem aviso e sem chance de defesa, uma joelhada no meio das suas pernas. Ele se encolheu de dor e caiu agachado no chão.

"Você me machucou, seu babaca", disse Cristiano.

Olhei pra ele e respondi: "Machuquei e vou machucar mais se você encostar em mim de novo. Entendeu?"

Ele não disse nada em resposta. Perguntei mais uma vez em tom agressivo: "Entendeu?" E ele confirmou com a cabeça em silêncio enquanto gemia de dor. Foi minha melhor atuação Charles Bronson.

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A risada do Sombra (Orson Welles)
https://www.youtube.com/watch?v=jeTMTgIQ1_U

Trenzinho do Caipira (Heitor Villa-Lobos, adaptada por Edu Lobo e com letra de Ferreira Gullar)
https://www.youtube.com/watch?v=1YTBQoMc21Y

Bola de meia, bola de gude (Milton Nascimento/Fernando Brant) com Milton
https://www.youtube.com/watch?v=e3PjezpcDoU






 

LÍTIO
João Cândido Martins

abril de 2014

00h14
Minha mulher está dormindo. Eu, ao contrário, estou sem sono, pois fiquei sem um dos meus remédios reguladores de comportamento. Uso três: lítio, torval e rispiridona. Motivos alheios à essa narrativa geraram a necessidade de que eu os ingerisse diariamente, e assim o faço, sob supervisão médica, há algum tempo. A ideia era que os remédios me ajudassem a não explodir. De início se mostraram bem eficazes, mas com o tempo, percebi que se eu ficasse sem um deles por algum tempo sofria efeitos péssimos. Depois do quinto dia sem torval, por exemplo, eu sentia vontade de vomitar.

E é essa a situação no momento: fiquei sem o remédio e esqueci de comprar mais. Não quero sofrer com a abstinência. Resolvo, sem reflexão alguma, que vou tomar dois comprimidos de lítio para compensar a ausência do torval. Engulo as pílulas e bebo água para que elas desçam com mais facilidade pela garganta. Sento numa das banquetas da cozinha e acendo um cigarro para esperar a chegada do sono.

01h32
Moramos numa das esquinas que cruzam a Avenida Visconde de Guarapuava no centro de Curitiba, possivelmente um dos cruzamentos mais movimentados da região em termos de fluxo viário. Aqui o barulho de veículos só é interrompido lá pelas 4:30, 5 horas da manhã. Mesmo nesses horários perdidos da madrugada, o vazio é eventualmente cortado pelo grito de um bêbado ou por um casal que passa brigando.Depois, tudo volta com força e, às sete da manhã, o alvoroço que emana da rua já está configurado e chega tranquilamente aos últimos andares.

É muito diferente dos bairros, onde há locais em que o silêncio da noite só é entrecortado ao fundo pelo som distante de um motor de caminhão passando com lentidão por alguma estrada. Ou por alguma ave de hábitos noturnos. Não que não existam aves no centro: eu mesmo já tive contato visual com várias, tanto à noite quanto de dia. Bandos em revoada sempre tomam o caminho do Passeio Público. Acho que moram lá.

3h12
Uma batida de carros no cruzamento entre a Visconde e a Mariano Torres toma minha atenção. As pessoas andam e conversam de forma calma e pacífica, mas é perceptível que todos estão tensos, como não podia deixar de ser. Essas situações sempre são constrangedoras para todos os lados envolvidos, mas principalmente, claro, para o responsável pela batida, que é a pessoa que deve arcar com os prejuízos. Ninguém quer estar nessa posição. Eu já estive três vezes.

Sinto algo estranho no estômago. Não é nada ruim, pelo contrário, a sensação é a de que alguém está calmamente massageando minha região abdominal. Acendo outro cigarro e fico sentado na cozinha me deleitando com a novidade.

04h53
É o lítio. Ele está me provocando essas reações estranhas. Agora sinto como se meu corpo inteiro estivesse sendo abraçado. Ando pela cozinha, conto os azulejos, perambulo pela internet, acendo outro cigarro. Como eu previa, neste horário não há nenhum som vindo da rua. É necessário desfrutar o momento. Vou até a janela e vislumbro a lua cheia gigantesca e de um amarelo intenso se pondo atrás dos prédios gêmeos da Rua Francisco Torres.

Quantas milhares de pessoas tomam remédios diariamente como eu? Quanto elas gastam com esses remédios? É possível consumi-los sem viciar? Sentado na banqueta, encosto meu corpo na parede e sinto que estou afundando. É a mesma sensação que teve o escritor Carlos Castañeda na casa do índio Don Juan, após ingerir a erva do diabo.

Lembro subitamente que está marcado para esta manhã meu exame de revalidação da carteira de motorista. Não posso faltar. Preciso não dormir.

06h15
“Você não dormiu?”, pergunta minha mulher.

“Não. O torval acabou há uns dias e eu tomei dois lítios pra compensar.”

“Cara, mas que absurdo, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tomar dois remédios não vai compensar a falta de outro”, disse ela. “Tô pasma com você, João. Às vezes você parece criança. Como você tá se sentindo agora?”

“Tô bem”, respondi com sinceridade. Realmente eu me sentia mais confortável.

“Mas você não tem que tomar outro lítio pela manhã?”

“Bom, eu tomei dois ontem...”

“Sei lá, é com você”, disse ela indo tomar banho.

Depois que ela sai para o trabalho, tomo mais um lítio, por precaução.

07h43
Estou dentro de um táxi indo para o Detran, com o intuito de prestar um exame de direção. Estou sob o efeito de três pílulas de lítio, mas tenho certeza que vou desempenhar uma direção controlada, consciente. Convicta da própria razoabilidade. O motorista do táxi está escutando uma rádio com músicas neo-sertanejas, mas meu cérebro distorce as melodias, convertendo-as em outras mais ao meu agrado. A porta do carro possui uma textura muito aconchegante ao tato. Vejo as pessoas andando nas ruas e sinto vontade de abraçá-las. Chegamos. Pago a corrida e desço um tanto cambaleante, mas consigo firmar o corpo e sigo andando em direção à recepção. Na minha cabeça, ouço uma suíte do Pink Floyd.

08h30
Vou fazer o teste junto a uma mulher de nome Andreia. É a quinta vez que ela tenta tirar a carteira. Nervosa, ela me pede que dirija antes. Concordo com um sorriso lânguido. O avaliador é muito tranquilo, parece gente boa. Nós nos instalamos no veículo e ele começa a dizer as ruas pelas quais eu devo dirigir. No banco de trás, Andreia assiste meu teste em silêncio. Cada movimento que executo foi mecanicamente ensaiado por anos. Eu sei o que estou fazendo. Mas a sensação é que estou pilotando uma nave espacial. No final, só faltou eu ligar a seta para a direita na hora de estacionar. Tirando isso, meu teste foi perfeito. Desço do carro e cedo o lugar a Andreia.

08h55
Ela já começou mal porque não colocou o cinto de segurança. O carro morreu na primeira tentativa e, na segunda, teve um pequeno solavanco quando ela trocou de marcha. Nas ruas calmas Andreia até ia bem, mas a situação complicava quando ela tinha de enfrentar cruzamentos mais perigosos ou situações inusitadas. O teste estava indo para o final quando o avaliador pediu a ela que virasse numa descida meio íngreme.

No meio do trajeto, ela perdeu o controle do carro, sei lá o que aconteceu, e começamos a ir de forma descontrolada em direção a um caminhão que saía de um estacionamento. Eu estava no banco de trás e pensei que havia tido um filho, mas não havia plantado nenhuma árvore, nem escrito nenhum livro. O avaliador conseguiu controlar o veículo e o carro parou a poucos metros do caminhão. Ficamos os três em silêncio durante alguns segundos até que o avaliador disse:

“Vamos voltar.”

Quando chegamos, Andreia, que acabou sendo novamente reprovada no teste, tirou um remédio da bolsa e ingeriu num bebedouro. Perguntei o que era e ela respondeu:
“lítio.”

12h23
Estou deitado, finalmente. Não almocei, estou sem fome. E ainda sem sono. Não sei se algum dia vou sentir sono de novo. Não sei se quero dormir. Por mim, tomaria toda a caixa de lítio e todos os remédios reguladores do mundo, todos ao mesmo tempo. Depois me sentaria em frente a uma lareira lembrando cenas da minha primeira infância.

O forno à lenha na cozinha. Os pinhões dispostos aleatoriamente sobre a chapa de metal. O calor. Calor nas entranhas. Olhos fechados. Areia movediça. Meu corpo sendo sugado. Agarro-me a um cipó e tento sair dali, mas o esforço é inútil e sou tragado pelo buraco. Sinto que estou sendo mastigado e ingerido. Apago.



O OLHO
João Cândido Martins

1
Jairo é bem mais jovem que eu, fala pouco, é inteligente, confiável, atira bem e eu gosto de estar em sua companhia. Essas são as razões pelas quais temos uma parceria de mais de 8 anos matando gente por todo o Brasil. Serviços limpos e rápidos. Jairo mantém uma lista escondida com os nomes de todas as vítimas. Eu já perdi a conta. Nunca me interessei em saber quem eram aquelas pessoas. Estávamos em maio de 2030 e eu, após 57 anos de uma vida errática e repleta de fracassos profissionais, só queria o dinheiro.

O opala verde de Jairo foi lavado na tarde daquele sábado. Era um daqueles carros usados por presidentes nos anos 1980, mas pintado em tom verde-musgo. Tínhamos um encontro com um empresário que havia feito uma encomenda. O empresário morava no bairro Alto da XV, mas pediu que fôssemos a um escritório no centro de Curitiba para passar as coordenadas.

No escritório encontramos o empresário que estava acompanhado por um homem engravatado e um jovem de, no máximo, 20 e poucos anos. O empresário explicou que o jovem, seu filho, fora assaltado por dois bandidos há uns meses. Os caras torturaram o rapaz e arrancaram sua orelha esquerda. Ele tinha informações sobre os bandidos e queria que nós fôssemos lá resolver o problema. Prometeu R$ 5 mil por cabeça e adiantou metade ali na hora, em cash.

Estava tudo certo, mas havia uma condição. O filho do empresário teria de ir junto. Tentei argumentar que eu e Jairo só trabalhávamos sozinhos, mas nada o demoveu. Ele queria que o filho assistisse à morte de seus algozes. Sem alternativa, concordamos. O engravatado, que até aquele momento permanecera em silêncio, disse que os bandidos se chamavam M.O. e T.P. e que eles estariam naquela noite num lugar chamado Sunlight Dance Club, no caminho de Piraquara. Com os R$ 5 mil do adiantamento no bolso, lá fomos, acompanhados pelo filho do empresário, de nome Flávio.

2
“Dá pra fumar aqui?”, perguntou Flávio ao entrar no carro.

“Sim, sem problema”, respondeu Jairo.

Flávio reclamou do cheiro do carro, da música no rádio, da demora no trajeto. Em certo momento, cansado daquilo, eu disse:

“Flávio, a viagem vai durar o tempo que for necessário. O combinado foi que você iria reconhecer os caras. Não precisamos conversar daqui até lá.”

Ele ficou quieto e uns 15 minutos depois, chegamos ao Sunlight Dance Club. Como era de se esperar, tratava-se de um puteiro de beira de estrada. O nome do local estava escrito em neon vermelho, com a iluminação de algumas letras falhando. Entramos.

Um globo espelhado pendia no centro do salão principal. Àquela hora havia umas poucas pessoas assistindo aos shows de strip-tease que as prostitutas faziam num pequeno palco. Pedimos cerveja e amendoins. O locutor da casa anunciou Marla Flores que dançaria Purple Rain, do Prince. Nunca paguei uma mulher para ter sexo. Conheci muito pouco da realidade das prostitutas, mas sempre as respeitei. Uma lista de todas as prostitutas que conheci durante a vida começou a aparecer em minha mente.

Meus pensamentos foram interrompidos quando percebi que Flávio voltou a se soltar, rir alto, fazer piadas. Aquilo era um problema, pois tínhamos de ser discretos. A qualquer momento os alvos poderiam chegar. Flávio pediu uma vodca e bebeu com rapidez. Lembrei a ele que estávamos ali para cumprir uma missão.

“Olha, seu João” disse ele, “eu entendo seu ponto, mas quem está a serviço são vocês dois. Eu só tô passeando. Enquanto aqueles caras não chegarem, vou me divertir.”

Antes que eu pudesse contra-argumentar, ele chamou o garçom e pediu a bebida mais forte que tivesse no estoque. O garçom retornou com uma cachaça que foi entornada por Flávio quase de um gole só. “É isso que você chama de bebida mais forte? Você tá de brincadeira? Traz aí a pancada mais violenta que você tiver.”

O garçom ficou olhando em silêncio por alguns segundos, até que deu um sorriso e disse que já voltava. Quando retornou, trouxe uma garrafa com o vidro todo retorcido contendo uma bebida de cor avermelhada.

“O que é isso?”, perguntou Flávio.

O garçom explicou que era uma cachaça feita por um ermitão que morava na Serra do Mar. “Ela é bem potente”, disse ele.

Flávio estava abrindo a garrafa quando Jairo o impediu:

“Espera, tem alguma coisa no fundo.”

De fato havia. Pairando no fundo da garrafa estava um olho com veias desprendendo-se dele.

“Que porra é essa?”, perguntou Flávio ao garçom, que, sorrindo, respondeu ser normal.

“Prática comum entre os índios. Deve ser um olho de galinha, não mata ninguém. É só beber. Meu amigo T.P., que vem hoje aqui, bebe direto.”

Ao ouvir isso, todos redobramos a atenção, pois T.P. era um dos nossos alvos. Flávio encheu seu copo com a cachaça vermelha, seguido por Jairo que também quis experimentar. Eu recusei. Aquele olho me dava náuseas. Eles beberam avidamente e elogiaram a bebida. No palco, Shirley Vox se despia ao som de um tango misturado com dance music.

3
“São eles”, disse Flávio, que se esgueirou em direção à porta de saída. Os dois sujeitos pareciam desarmados. Conversaram com o garçom que apontou para a nossa mesa. Eles vieram em nossa direção. Pediram licença para trocar uma ideia sobre a tal cachaça vermelha. Concordamos. Eles se sentaram e, ato contínuo, disparamos vários tiros contra os dois marginais, provocando o estrondo habitual. Houve confusão, gritos, fumaça, cheiro de pólvora e sangue. Um dos alvos ainda estava sentado na cadeira com a cabeça pendendo para baixo. Com o pé, Jairo derrubou a cadeira e o corpo no chão.

Quando eu ia dizer para irmos embora, Jairo tombou com uma forte dor abdominal. A primeira coisa que pensei foi na tal bebida, em algum efeito que ela pudesse causar. Rapidamente me aproximei dele e disse “eu te ajudo”. As convulsões diminuíram por um breve instante. Ele me olhou com os olhos parados e disse com uma voz estranha, vinda do fundo da garganta:

“João, fuja. Eu já morri. Eu estou morto.”

“Fique quieto e se apoie em mim, temos de ir embora”, insisti.

Nesse instante, uma das dançarinas se aproximou. Havia algo de sinistro nos seus olhos e a sua voz soou oca, como que vinda de algum lugar perdido no inferno. Ela não mexia a boca. O som da sua voz não vinha de fora. As palavras pareciam se formar dentro da minha cabeça.

“Você não bebeu”, ela disse, “nós não queremos você. Vá embora enquanto pode.”

Peguei a chave do carro no bolso da jaqueta de Jairo e saí correndo pela estreita escada que dava para o estacionamento. Do lado de fora do Sunlight Dance Club, Flávio estava ajoelhado olhando para cima, como se estivesse falando com alguém. Mas não havia nada à sua frente. Entrei no opala, engatei a primeira e tomei a direção de Curitiba sob forte chuva.



NINGUÉM
João Cândido Martins

1
Os fatos que vou narrar se deram em 1995, mas por uma questão de segurança, prefiro omitir nomes e detalhes para evitar constrangimentos. Tudo aconteceu numa delegacia policial, em Curitiba. Eu tinha 22 anos e havia passado no concurso para escrivão da Polícia Civil. Era praticamente meu primeiro emprego. Antes disso, já havia trabalhado como pesquisador do Censo, em 1990. Quanto a ser policial, não creio que tivesse algum tipo de vocação, apesar de haver sofrido alguma influência de meu pai, que foi escrivão e delegado. Para mim, atuar como escrivão de polícia era uma atividade burocrática como outra qualquer, com a diferença de que eles forneciam um revólver. Sempre fui avesso a armas, nunca cheguei sequer a manipular o revólver que me foi emprestado para uso em serviço. Quando saí da Polícia, devolvi a arma intacta.

Há outra diferença entre ser policial e as outras profissões: o plantão 24 horas. Em certos dias, as situações que surgem nesses plantões são inacreditáveis. Mas há outros em que nada acontece e você passa horas numa expectativa irrealizada que redunda em fadiga. Era nisso que eu pensava dentro do ônibus ao ir para o distrito naquela noite gelada. Dado estatístico: quanto mais frio, menos crimes. E aquela noite estava realmente muito fria, mesmo levando-se em conta os padrões curitibanos. Vento incessante e garoa encorpada.

A sensação de frio triplicou quando eu desci do ônibus. Andei tremendo por três quadras até chegar à delegacia que, à época, funcionava temporariamente numa casa alugada perto do Terminal do Cabral. O imóvel não foi pensado para ser uma delegacia, portanto não tinha nenhum cômodo que pudesse servir como cela. Não era possível prender ninguém. Presos em flagrante eram encaminhados para outras delegacias. Cada plantão era realizado por uma equipe diferente. Pessoalmente eu não tinha preferências, mas claro que algumas companhias me agradavam mais. Naquela noite estavam a delegada Denise (nome fictício, aliás, todos os nomes nesse texto são fictícios); os agentes Roberto e Antônio (veteranos) e o agente Sérgio (novato como eu). Entrei e me deparei com Sérgio, que assistia à TV.

“Aconteceu alguma coisa enquanto estive fora?”, perguntei.
“Não, tudo tranquilo”, respondeu Sérgio. “O pessoal vai pedir uma pizza. Você quer participar da divisão?”
Concordei e fui até a sala destinada aos escrivães de plantão. Ela havia sido recentemente pintada. A máquina de datilografar era uma Remington antiga, parecida com a do meu pai. A primeira coisa que pensei foi que eu não queria dormir naquele lugar cheirando a tinta. Resolvi ocupar o sofá da sala principal, maior, mais confortável e mais próximo do grande aquecedor ligado na sala lateral. Agora Sérgio estava acompanhado por Roberto e Antônio, que contavam histórias da velha guarda. Crimes não solucionados, tiroteios, perseguições em alta velocidade.

“Aquilo era polícia, todo mundo respeitava”, disse Roberto. “Tinha dinheiro, tinha investimento na polícia. Hoje é tudo sucateado”, completou Antônio.

Os dois ficaram um breve instante em silêncio até que Antônio continuou: “Sem falar na liberdade de ação. Não tinha essa coisa de direitos humanos. Eu queria saber quem foi o maluco que inventou isso.”

A delegada Denise entrou na sala já respondendo à pergunta de Antônio: “Os direitos humanos existem pra evitar os excessos. A polícia não pode ter poderes absolutos.”

“Com todo respeito, mas a senhora diz isso”, retorquiu Roberto, “porque não foi delegada lá por 1977, 78.” A conversa foi interrompida pela chegada da pizza.

2
Era necessário que um de nós ficasse acordado durante a noite, mesmo que não acontecesse nada. Sérgio foi o escolhido. Doutora Denise me autorizou a usar o sofá da sala principal. Só queria apagar por umas horas debaixo de um cobertor que eu tinha levado. Creio que meu sono foi automático porque não me lembro de ser envolvido por pensamentos. Exatamente às 4 da manhã, acordei com frio. Fui até a sala lateral e Sérgio dormia sentado no sofá com a televisão ligada num canal que já estava fora do ar. Desliguei o aparelho. Em princípio eu deveria acordá-lo, mas resolvi deixar o coitado dormir mais um pouco.

Em frente à janela da entrada, acendi um cigarro e fiquei observando a geada se formar. Já se disse que às 4 da manhã a noite é mais escura. Lembrei-me da conversa que tivemos antes da pizza e raciocinei que uma parte dos policiais, que atuava antes da Constituição de 1988 deveria, de fato, estar enfrentando dificuldades com os novos tempos. O próprio Roberto comentou, certa vez, que ficava incomodado com a impossibilidade de revistar mulheres. “Eu estou revistando a mulher, não estou apalpando como um tarado”, dizia ele.
Mas os tempos haviam mudado e eles teriam de se acostumar.

Meu olhar foi ofuscado pela luz de um automóvel que estacionou em frente à delegacia. Era a Polícia Militar e, com certeza, trazia alguma ocorrência. Os policiais retiraram do carro um indivíduo algemado e visivelmente agitado. Abri a porta e me espantei com a altura do preso. Os militares disseram que ele estava alcoolizado e fazendo arruaça nas imediações. Respondi que não tínhamos como prendê-lo na casa. No rádio do carro, outra ocorrência exigia a atenção dos policiais militares. Um deles pediu para falar com a delegada.

Doutora Denise estava dormindo. Bati na porta algumas vezes até que a luz acendeu. Expliquei o que estava acontecendo e fomos para a sala, mas os militares já não estavam mais lá. Entretanto, deixaram o preso desalgemado sob a guarda de Sérgio. De repente, ele começou a se debater com raiva, sendo contido por Roberto, Antônio e Sérgio. Foi difícil imobilizá-lo, mas aos poucos sua respiração regularizou e ele ficou aparentemente mais calmo.

A delegada se aproximou e perguntou seu nome. Nesse momento, o preso fez a última coisa que deveria ter feito: disse “puta”. Ela levou alguns segundos para entender e acreditar que estava ouvindo aquilo, mas ele repetiu a palavra várias vezes. Denise estava agachada. Calmamente se levantou e, olhando para mim, disse:

“João, vamos fazer um auto de prisão em flagrante desse cara por desacato à autoridade.” Concordei e fomos para a sala dos escrivães.

3
O preso não forneceu nenhum dado concreto sobre si. Também não portava carteira de identidade. Não respondeu nenhuma pergunta que a delegada lhe fez. Quando lhe dei os documentos para que assinasse, rasgou os papéis. Naquele momento, estávamos a sós com ele. A delegada chamou por Roberto e, de forma inesperada, o preso se atirou sobre ela envolvendo seu pescoço com as mãos (cometemos o erro de deixá-lo sem algemas).

Novamente foi necessária a força de Roberto, Antônio e Sérgio para conter o sujeito que, a esta altura, urrava como um animal raivoso. Eu e Sérgio permanecemos cuidando da delegada enquanto Roberto e Antônio levaram o preso para outro compartimento da casa. Quando ela se recuperou, fomos ver onde eles estavam.

“Cadê o preso?”, perguntou a delegada a Roberto e Antônio. Rindo, Roberto respondeu que agora o preso iria ficar calmo.

“Como assim, Roberto? Onde ele está?”, perguntou novamente Denise.

“A gente colocou o preso no porãozinho que fica embaixo da escada que vai pro primeiro andar. É onde a servente guarda os produtos de limpeza”, indicou Roberto.

Denise ficou vermelha e começou a gritar: “Vocês são loucos? Esse espaço é minúsculo! Nós podemos ser presos se souberem disso. Tirem o preso daí agora. Agora! Eu estou mandando!”

Nesse instante o preso começou a chutar a portinhola do porãozinho por dentro. Sua fúria era imensa e os chutes cada vez mais fortes. Ficamos paralisados vendo a cena sem saber o que fazer. Lascas de madeira voavam a cada pancada, até que a porta cedeu e os golpes cessaram. Ficamos esperando o preso sair do cubículo, mas Roberto escancarou a portinhola e não havia nada dentro do pequeno espaço. Ninguém.



FOTOGRAFIAS E CARTÕES-POSTAIS ANTIGOS 4 (Acervo João Cândido Martins) - Outras Cidades

Foto 1: Aparecida do Norte (SP), Morro do Cruzeiro. - 22 de fevereiro de 1953
Foto 2: Rio de Janeiro (RJ), Corcovado - 27 de janeiro de 1955
Foto 3: Rio de Janeiro (RJ), Avenida Rio Branco (anos 20)
Foto 4: Porto Alegre (RS), 18 de julho de 1956
Foto 5: Porto Alegre (RS), 18 de julho de 1956


























 

 

FOTOGRAFIAS E CARTÕES-POSTAIS ANTIGOS 3 (Acervo João Cândido Martins) Futebol em Curitiba anos 40/50

Foto 1: Campo do Seminário - Bairro do Botiatuba, antigo município de Timoneira (hoje Almirante Tamandaré) - 04 de julho de 1948.
Foto 2: Braga e Secon passeando no Campo do Seminário dos Padres Capuchinhos quando da excursão à Timoneira
Foto 3: 6 de março de 1949 Veteranos x Calouros (Filosofia UFPR). Meu pai é o primeiro agachado da esquerda para a direita.
Foto 4: 1951 UFPR Filosofia 0 x Medicina 10. Meu pai é o primeiro agachado da direita para a esquerda
Foto 5: Rio de Janeiro - Maracanã 21 de janeiro de 1955






FOTOGRAFIAS E CARTÕES-POSTAIS ANTIGOS 2 (Acervo João Cândido Martins)
Meu pai, Vicente de Oliveira Santos, e minha tia, Jesuína de Oliveira Santos, em excursão à Festa do Rocio em Paranaguá - 30 de novembro de 1947

Foto 1: Meu pai na Rua XV, em Curitiba. 1947
Foto 2: Minha tia é a segunda da esquerda para a direita. Meu pai é o último, com gravata escura.
Fotos 3 e 4: Cartões-Postais do evento em Paranaguá