domingo, 31 de maio de 2020

TODOS OS INFINITOS
João Cândido Martins

1
Tive duas experiências teatrais na vida. Numa delas, no Colégio Paranaense, encarnei uma abóbora. Tentei empregar algumas técnicas teatrais de Stanislavski e Artaud, mas minha abóbora só dizia uma frase: "todas as frutas devem ser lavadas antes de serem comidas". Diante dessa limitação, tentei dizer a fala como Charles Bronson faria. Não sei se eu consegui convencer alguém de que eu era um cara durão vestido numa roupa de abóbora, mas tenho a certeza de que nunca antes na história do teatro, uma abóbora foi tão visceral.

O outro papel que interpretei foi o de Deus, ou pra ser mais exato, da voz de Deus. Nesse caso eu também só dizia uma frase: "vocês estão todos condenados". Na hora, eu falei a frase pelo microfone e, em seguida soltei a risada do Orson Welles em O Sombra. O pessoal não gostou muito.

O garoto ao meu lado na foto da abóbora se chamava Cristiano. O cara era um furacão, batia em todo mundo, jogava bola, escalava as árvores mais difíceis, colocava tachinhas e colas nas cadeiras, foi o primeiro garoto da turma a namorar uma menina, sabia jogar baralho e também foi a primeira pessoa que vi colar numa prova.

Um dia brigamos, não lembro o motivo. Provavelmente futebol, pois ele era coxa branca e eu, por influência do meu pai, atleticano. Ficamos sem nos falar um tempo e, como ele era o capitão do time de futebol, fui automaticamente excluído. Sem os amigos habituais, resolvi conhecer melhor o interior do Colégio Paranaense, um prédio majestoso do começo do século XX, que deu origem ao nome do bairro Seminário, no que, à época, era a região sul de Curitiba. Foi caminhando pelos corredores do colégio que conheci a biblioteca, onde por indicação da bibliotecária, pela primeira vez na vida emprestei um livro: "Memórias de um Fusca", do Orígenes Lessa.

2
O colégio era Marista, isto é, católico. Então tínhamos atividades religiosas. Como eu estava andando sozinho pelo colégio e meio sorumbático, fui convidado por um dos religiosos que trabalhavam lá a assistir um ensaio do coral de crianças. Eu nem sabia que o colégio tinha um coral. Fui ver. De cara me apaixonei por uma das meninas que compunham o grupo, eu nunca tinha a visto antes. Eles cantaram alguns temas, mas eu só conseguia contemplar meio embasbacado a menina que tinha uma voz impressionante pra idade.

Entrei no coral e fiquei aguardando o momento certo de abordá-la. Nesse meio tempo, ensaiei com eles três músicas: a versão que Edu Lobo e Ferreira Gullar fizeram para o "Trenzinho do Caipira", de Villa-Lobos (tema que eu usaria como vinheta de um programa sobre MPB que apresentei na Rádio Educativa ali entre 97 e 99); "Bola de Meia-Bola de Gude", da parceria Fernando Brant/Milton Nascimento e o "Hino a Marcelino Champagnat", que era o patrono dos Maristas. Cantamos tanto essas músicas, que cheguei a decorar o Hino.

"Champagnat da juventude
Pai, amigo e professor
Guia sempre nossos passos
No caminho do Senhor"

Por alguma razão, eu trocava "amigo" por "amante" (palavra que eu nem sabia o que significava, mas devo ter lido em alguma notícia criminal). Quando os ensaios acabavam, a menina saía rápido e eu nunca tinha a oportunidade de falar com ela. Até que houve uma excursão ao planetário no Colégio Estadual e a turma dela foi com a nossa no ônibus. Não consegui sentar ao lado dela na condução, mas no planetário, eu me posicionei à sua direita. Ela me olhou e sorriu. Pensei: "que beleza, posso dizer qualquer bobagem que ela não vai ligar, já está na minha".

Falei alguma coisa como "que legal, vamos ver o espaço". Ela me olhou e disse: "Não tem como ver o espaço, ele é infinito, você não sabia?" Fiquei em silêncio sem saber bem o que dizer e soltei "se o infinito fosse uma coisa, eu te dava de presente". Ela riu e respondeu: "então você está com um problema, porque eu quero todos os infinitos". A luz estava prestes a apagar e alguém a chamou pra sentar numa cadeira lá do outro lado. Ela levantou e foi. Quem chamava era Cristiano. Sempre ele.

3
Estávamos no dia 16 de abril. O professor José Luis que apresentava o Planetário (e que eu reencontraria anos depois no Colégio Militar) perguntou se alguém fazia aniversário naquele dia e eu levantei a mão timidamente. "Em que ano você nasceu?", perguntou ele. Respondi que em 1973, então ele regulou os aparelhos para mostrarem como foi a noite de 16 de abril daquele ano. O céu (a representação do céu na abóbada do planetário) foi quase que preenchido por riscos luminosos rápidos. O professor explicou que naquele dia perdido em 73, houve uma intensa chuva de meteoros que provinham de vários pontos do universo. Um fenômeno que acontece a cada sei lá quantos mil anos. "Você foi um privilegiado", comentou o astrônomo.

Quando saímos do prédio do Planetário, resolvi fazer um xixi atrás do ônibus, coisa de criança. Estava ali tranquilamente quando senti que alguém segurava meu braço com força. Era Cristiano. Ele perguntou com raiva: "Acho que você tá querendo chegar na minha namorada". Ele era um pouco mais alto que eu, mas não era muito encorpado. Respirei fundo, fiquei de frente pra ele e apliquei, sem aviso e sem chance de defesa, uma joelhada no meio das suas pernas. Ele se encolheu de dor e caiu agachado no chão.

"Você me machucou, seu babaca", disse Cristiano.

Olhei pra ele e respondi: "Machuquei e vou machucar mais se você encostar em mim de novo. Entendeu?"

Ele não disse nada em resposta. Perguntei mais uma vez em tom agressivo: "Entendeu?" E ele confirmou com a cabeça em silêncio enquanto gemia de dor. Foi minha melhor atuação Charles Bronson.

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A risada do Sombra (Orson Welles)
https://www.youtube.com/watch?v=jeTMTgIQ1_U

Trenzinho do Caipira (Heitor Villa-Lobos, adaptada por Edu Lobo e com letra de Ferreira Gullar)
https://www.youtube.com/watch?v=1YTBQoMc21Y

Bola de meia, bola de gude (Milton Nascimento/Fernando Brant) com Milton
https://www.youtube.com/watch?v=e3PjezpcDoU






 

LÍTIO
João Cândido Martins

abril de 2014

00h14
Minha mulher está dormindo. Eu, ao contrário, estou sem sono, pois fiquei sem um dos meus remédios reguladores de comportamento. Uso três: lítio, torval e rispiridona. Motivos alheios à essa narrativa geraram a necessidade de que eu os ingerisse diariamente, e assim o faço, sob supervisão médica, há algum tempo. A ideia era que os remédios me ajudassem a não explodir. De início se mostraram bem eficazes, mas com o tempo, percebi que se eu ficasse sem um deles por algum tempo sofria efeitos péssimos. Depois do quinto dia sem torval, por exemplo, eu sentia vontade de vomitar.

E é essa a situação no momento: fiquei sem o remédio e esqueci de comprar mais. Não quero sofrer com a abstinência. Resolvo, sem reflexão alguma, que vou tomar dois comprimidos de lítio para compensar a ausência do torval. Engulo as pílulas e bebo água para que elas desçam com mais facilidade pela garganta. Sento numa das banquetas da cozinha e acendo um cigarro para esperar a chegada do sono.

01h32
Moramos numa das esquinas que cruzam a Avenida Visconde de Guarapuava no centro de Curitiba, possivelmente um dos cruzamentos mais movimentados da região em termos de fluxo viário. Aqui o barulho de veículos só é interrompido lá pelas 4:30, 5 horas da manhã. Mesmo nesses horários perdidos da madrugada, o vazio é eventualmente cortado pelo grito de um bêbado ou por um casal que passa brigando.Depois, tudo volta com força e, às sete da manhã, o alvoroço que emana da rua já está configurado e chega tranquilamente aos últimos andares.

É muito diferente dos bairros, onde há locais em que o silêncio da noite só é entrecortado ao fundo pelo som distante de um motor de caminhão passando com lentidão por alguma estrada. Ou por alguma ave de hábitos noturnos. Não que não existam aves no centro: eu mesmo já tive contato visual com várias, tanto à noite quanto de dia. Bandos em revoada sempre tomam o caminho do Passeio Público. Acho que moram lá.

3h12
Uma batida de carros no cruzamento entre a Visconde e a Mariano Torres toma minha atenção. As pessoas andam e conversam de forma calma e pacífica, mas é perceptível que todos estão tensos, como não podia deixar de ser. Essas situações sempre são constrangedoras para todos os lados envolvidos, mas principalmente, claro, para o responsável pela batida, que é a pessoa que deve arcar com os prejuízos. Ninguém quer estar nessa posição. Eu já estive três vezes.

Sinto algo estranho no estômago. Não é nada ruim, pelo contrário, a sensação é a de que alguém está calmamente massageando minha região abdominal. Acendo outro cigarro e fico sentado na cozinha me deleitando com a novidade.

04h53
É o lítio. Ele está me provocando essas reações estranhas. Agora sinto como se meu corpo inteiro estivesse sendo abraçado. Ando pela cozinha, conto os azulejos, perambulo pela internet, acendo outro cigarro. Como eu previa, neste horário não há nenhum som vindo da rua. É necessário desfrutar o momento. Vou até a janela e vislumbro a lua cheia gigantesca e de um amarelo intenso se pondo atrás dos prédios gêmeos da Rua Francisco Torres.

Quantas milhares de pessoas tomam remédios diariamente como eu? Quanto elas gastam com esses remédios? É possível consumi-los sem viciar? Sentado na banqueta, encosto meu corpo na parede e sinto que estou afundando. É a mesma sensação que teve o escritor Carlos Castañeda na casa do índio Don Juan, após ingerir a erva do diabo.

Lembro subitamente que está marcado para esta manhã meu exame de revalidação da carteira de motorista. Não posso faltar. Preciso não dormir.

06h15
“Você não dormiu?”, pergunta minha mulher.

“Não. O torval acabou há uns dias e eu tomei dois lítios pra compensar.”

“Cara, mas que absurdo, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tomar dois remédios não vai compensar a falta de outro”, disse ela. “Tô pasma com você, João. Às vezes você parece criança. Como você tá se sentindo agora?”

“Tô bem”, respondi com sinceridade. Realmente eu me sentia mais confortável.

“Mas você não tem que tomar outro lítio pela manhã?”

“Bom, eu tomei dois ontem...”

“Sei lá, é com você”, disse ela indo tomar banho.

Depois que ela sai para o trabalho, tomo mais um lítio, por precaução.

07h43
Estou dentro de um táxi indo para o Detran, com o intuito de prestar um exame de direção. Estou sob o efeito de três pílulas de lítio, mas tenho certeza que vou desempenhar uma direção controlada, consciente. Convicta da própria razoabilidade. O motorista do táxi está escutando uma rádio com músicas neo-sertanejas, mas meu cérebro distorce as melodias, convertendo-as em outras mais ao meu agrado. A porta do carro possui uma textura muito aconchegante ao tato. Vejo as pessoas andando nas ruas e sinto vontade de abraçá-las. Chegamos. Pago a corrida e desço um tanto cambaleante, mas consigo firmar o corpo e sigo andando em direção à recepção. Na minha cabeça, ouço uma suíte do Pink Floyd.

08h30
Vou fazer o teste junto a uma mulher de nome Andreia. É a quinta vez que ela tenta tirar a carteira. Nervosa, ela me pede que dirija antes. Concordo com um sorriso lânguido. O avaliador é muito tranquilo, parece gente boa. Nós nos instalamos no veículo e ele começa a dizer as ruas pelas quais eu devo dirigir. No banco de trás, Andreia assiste meu teste em silêncio. Cada movimento que executo foi mecanicamente ensaiado por anos. Eu sei o que estou fazendo. Mas a sensação é que estou pilotando uma nave espacial. No final, só faltou eu ligar a seta para a direita na hora de estacionar. Tirando isso, meu teste foi perfeito. Desço do carro e cedo o lugar a Andreia.

08h55
Ela já começou mal porque não colocou o cinto de segurança. O carro morreu na primeira tentativa e, na segunda, teve um pequeno solavanco quando ela trocou de marcha. Nas ruas calmas Andreia até ia bem, mas a situação complicava quando ela tinha de enfrentar cruzamentos mais perigosos ou situações inusitadas. O teste estava indo para o final quando o avaliador pediu a ela que virasse numa descida meio íngreme.

No meio do trajeto, ela perdeu o controle do carro, sei lá o que aconteceu, e começamos a ir de forma descontrolada em direção a um caminhão que saía de um estacionamento. Eu estava no banco de trás e pensei que havia tido um filho, mas não havia plantado nenhuma árvore, nem escrito nenhum livro. O avaliador conseguiu controlar o veículo e o carro parou a poucos metros do caminhão. Ficamos os três em silêncio durante alguns segundos até que o avaliador disse:

“Vamos voltar.”

Quando chegamos, Andreia, que acabou sendo novamente reprovada no teste, tirou um remédio da bolsa e ingeriu num bebedouro. Perguntei o que era e ela respondeu:
“lítio.”

12h23
Estou deitado, finalmente. Não almocei, estou sem fome. E ainda sem sono. Não sei se algum dia vou sentir sono de novo. Não sei se quero dormir. Por mim, tomaria toda a caixa de lítio e todos os remédios reguladores do mundo, todos ao mesmo tempo. Depois me sentaria em frente a uma lareira lembrando cenas da minha primeira infância.

O forno à lenha na cozinha. Os pinhões dispostos aleatoriamente sobre a chapa de metal. O calor. Calor nas entranhas. Olhos fechados. Areia movediça. Meu corpo sendo sugado. Agarro-me a um cipó e tento sair dali, mas o esforço é inútil e sou tragado pelo buraco. Sinto que estou sendo mastigado e ingerido. Apago.



O OLHO
João Cândido Martins

1
Jairo é bem mais jovem que eu, fala pouco, é inteligente, confiável, atira bem e eu gosto de estar em sua companhia. Essas são as razões pelas quais temos uma parceria de mais de 8 anos matando gente por todo o Brasil. Serviços limpos e rápidos. Jairo mantém uma lista escondida com os nomes de todas as vítimas. Eu já perdi a conta. Nunca me interessei em saber quem eram aquelas pessoas. Estávamos em maio de 2030 e eu, após 57 anos de uma vida errática e repleta de fracassos profissionais, só queria o dinheiro.

O opala verde de Jairo foi lavado na tarde daquele sábado. Era um daqueles carros usados por presidentes nos anos 1980, mas pintado em tom verde-musgo. Tínhamos um encontro com um empresário que havia feito uma encomenda. O empresário morava no bairro Alto da XV, mas pediu que fôssemos a um escritório no centro de Curitiba para passar as coordenadas.

No escritório encontramos o empresário que estava acompanhado por um homem engravatado e um jovem de, no máximo, 20 e poucos anos. O empresário explicou que o jovem, seu filho, fora assaltado por dois bandidos há uns meses. Os caras torturaram o rapaz e arrancaram sua orelha esquerda. Ele tinha informações sobre os bandidos e queria que nós fôssemos lá resolver o problema. Prometeu R$ 5 mil por cabeça e adiantou metade ali na hora, em cash.

Estava tudo certo, mas havia uma condição. O filho do empresário teria de ir junto. Tentei argumentar que eu e Jairo só trabalhávamos sozinhos, mas nada o demoveu. Ele queria que o filho assistisse à morte de seus algozes. Sem alternativa, concordamos. O engravatado, que até aquele momento permanecera em silêncio, disse que os bandidos se chamavam M.O. e T.P. e que eles estariam naquela noite num lugar chamado Sunlight Dance Club, no caminho de Piraquara. Com os R$ 5 mil do adiantamento no bolso, lá fomos, acompanhados pelo filho do empresário, de nome Flávio.

2
“Dá pra fumar aqui?”, perguntou Flávio ao entrar no carro.

“Sim, sem problema”, respondeu Jairo.

Flávio reclamou do cheiro do carro, da música no rádio, da demora no trajeto. Em certo momento, cansado daquilo, eu disse:

“Flávio, a viagem vai durar o tempo que for necessário. O combinado foi que você iria reconhecer os caras. Não precisamos conversar daqui até lá.”

Ele ficou quieto e uns 15 minutos depois, chegamos ao Sunlight Dance Club. Como era de se esperar, tratava-se de um puteiro de beira de estrada. O nome do local estava escrito em neon vermelho, com a iluminação de algumas letras falhando. Entramos.

Um globo espelhado pendia no centro do salão principal. Àquela hora havia umas poucas pessoas assistindo aos shows de strip-tease que as prostitutas faziam num pequeno palco. Pedimos cerveja e amendoins. O locutor da casa anunciou Marla Flores que dançaria Purple Rain, do Prince. Nunca paguei uma mulher para ter sexo. Conheci muito pouco da realidade das prostitutas, mas sempre as respeitei. Uma lista de todas as prostitutas que conheci durante a vida começou a aparecer em minha mente.

Meus pensamentos foram interrompidos quando percebi que Flávio voltou a se soltar, rir alto, fazer piadas. Aquilo era um problema, pois tínhamos de ser discretos. A qualquer momento os alvos poderiam chegar. Flávio pediu uma vodca e bebeu com rapidez. Lembrei a ele que estávamos ali para cumprir uma missão.

“Olha, seu João” disse ele, “eu entendo seu ponto, mas quem está a serviço são vocês dois. Eu só tô passeando. Enquanto aqueles caras não chegarem, vou me divertir.”

Antes que eu pudesse contra-argumentar, ele chamou o garçom e pediu a bebida mais forte que tivesse no estoque. O garçom retornou com uma cachaça que foi entornada por Flávio quase de um gole só. “É isso que você chama de bebida mais forte? Você tá de brincadeira? Traz aí a pancada mais violenta que você tiver.”

O garçom ficou olhando em silêncio por alguns segundos, até que deu um sorriso e disse que já voltava. Quando retornou, trouxe uma garrafa com o vidro todo retorcido contendo uma bebida de cor avermelhada.

“O que é isso?”, perguntou Flávio.

O garçom explicou que era uma cachaça feita por um ermitão que morava na Serra do Mar. “Ela é bem potente”, disse ele.

Flávio estava abrindo a garrafa quando Jairo o impediu:

“Espera, tem alguma coisa no fundo.”

De fato havia. Pairando no fundo da garrafa estava um olho com veias desprendendo-se dele.

“Que porra é essa?”, perguntou Flávio ao garçom, que, sorrindo, respondeu ser normal.

“Prática comum entre os índios. Deve ser um olho de galinha, não mata ninguém. É só beber. Meu amigo T.P., que vem hoje aqui, bebe direto.”

Ao ouvir isso, todos redobramos a atenção, pois T.P. era um dos nossos alvos. Flávio encheu seu copo com a cachaça vermelha, seguido por Jairo que também quis experimentar. Eu recusei. Aquele olho me dava náuseas. Eles beberam avidamente e elogiaram a bebida. No palco, Shirley Vox se despia ao som de um tango misturado com dance music.

3
“São eles”, disse Flávio, que se esgueirou em direção à porta de saída. Os dois sujeitos pareciam desarmados. Conversaram com o garçom que apontou para a nossa mesa. Eles vieram em nossa direção. Pediram licença para trocar uma ideia sobre a tal cachaça vermelha. Concordamos. Eles se sentaram e, ato contínuo, disparamos vários tiros contra os dois marginais, provocando o estrondo habitual. Houve confusão, gritos, fumaça, cheiro de pólvora e sangue. Um dos alvos ainda estava sentado na cadeira com a cabeça pendendo para baixo. Com o pé, Jairo derrubou a cadeira e o corpo no chão.

Quando eu ia dizer para irmos embora, Jairo tombou com uma forte dor abdominal. A primeira coisa que pensei foi na tal bebida, em algum efeito que ela pudesse causar. Rapidamente me aproximei dele e disse “eu te ajudo”. As convulsões diminuíram por um breve instante. Ele me olhou com os olhos parados e disse com uma voz estranha, vinda do fundo da garganta:

“João, fuja. Eu já morri. Eu estou morto.”

“Fique quieto e se apoie em mim, temos de ir embora”, insisti.

Nesse instante, uma das dançarinas se aproximou. Havia algo de sinistro nos seus olhos e a sua voz soou oca, como que vinda de algum lugar perdido no inferno. Ela não mexia a boca. O som da sua voz não vinha de fora. As palavras pareciam se formar dentro da minha cabeça.

“Você não bebeu”, ela disse, “nós não queremos você. Vá embora enquanto pode.”

Peguei a chave do carro no bolso da jaqueta de Jairo e saí correndo pela estreita escada que dava para o estacionamento. Do lado de fora do Sunlight Dance Club, Flávio estava ajoelhado olhando para cima, como se estivesse falando com alguém. Mas não havia nada à sua frente. Entrei no opala, engatei a primeira e tomei a direção de Curitiba sob forte chuva.



NINGUÉM
João Cândido Martins

1
Os fatos que vou narrar se deram em 1995, mas por uma questão de segurança, prefiro omitir nomes e detalhes para evitar constrangimentos. Tudo aconteceu numa delegacia policial, em Curitiba. Eu tinha 22 anos e havia passado no concurso para escrivão da Polícia Civil. Era praticamente meu primeiro emprego. Antes disso, já havia trabalhado como pesquisador do Censo, em 1990. Quanto a ser policial, não creio que tivesse algum tipo de vocação, apesar de haver sofrido alguma influência de meu pai, que foi escrivão e delegado. Para mim, atuar como escrivão de polícia era uma atividade burocrática como outra qualquer, com a diferença de que eles forneciam um revólver. Sempre fui avesso a armas, nunca cheguei sequer a manipular o revólver que me foi emprestado para uso em serviço. Quando saí da Polícia, devolvi a arma intacta.

Há outra diferença entre ser policial e as outras profissões: o plantão 24 horas. Em certos dias, as situações que surgem nesses plantões são inacreditáveis. Mas há outros em que nada acontece e você passa horas numa expectativa irrealizada que redunda em fadiga. Era nisso que eu pensava dentro do ônibus ao ir para o distrito naquela noite gelada. Dado estatístico: quanto mais frio, menos crimes. E aquela noite estava realmente muito fria, mesmo levando-se em conta os padrões curitibanos. Vento incessante e garoa encorpada.

A sensação de frio triplicou quando eu desci do ônibus. Andei tremendo por três quadras até chegar à delegacia que, à época, funcionava temporariamente numa casa alugada perto do Terminal do Cabral. O imóvel não foi pensado para ser uma delegacia, portanto não tinha nenhum cômodo que pudesse servir como cela. Não era possível prender ninguém. Presos em flagrante eram encaminhados para outras delegacias. Cada plantão era realizado por uma equipe diferente. Pessoalmente eu não tinha preferências, mas claro que algumas companhias me agradavam mais. Naquela noite estavam a delegada Denise (nome fictício, aliás, todos os nomes nesse texto são fictícios); os agentes Roberto e Antônio (veteranos) e o agente Sérgio (novato como eu). Entrei e me deparei com Sérgio, que assistia à TV.

“Aconteceu alguma coisa enquanto estive fora?”, perguntei.
“Não, tudo tranquilo”, respondeu Sérgio. “O pessoal vai pedir uma pizza. Você quer participar da divisão?”
Concordei e fui até a sala destinada aos escrivães de plantão. Ela havia sido recentemente pintada. A máquina de datilografar era uma Remington antiga, parecida com a do meu pai. A primeira coisa que pensei foi que eu não queria dormir naquele lugar cheirando a tinta. Resolvi ocupar o sofá da sala principal, maior, mais confortável e mais próximo do grande aquecedor ligado na sala lateral. Agora Sérgio estava acompanhado por Roberto e Antônio, que contavam histórias da velha guarda. Crimes não solucionados, tiroteios, perseguições em alta velocidade.

“Aquilo era polícia, todo mundo respeitava”, disse Roberto. “Tinha dinheiro, tinha investimento na polícia. Hoje é tudo sucateado”, completou Antônio.

Os dois ficaram um breve instante em silêncio até que Antônio continuou: “Sem falar na liberdade de ação. Não tinha essa coisa de direitos humanos. Eu queria saber quem foi o maluco que inventou isso.”

A delegada Denise entrou na sala já respondendo à pergunta de Antônio: “Os direitos humanos existem pra evitar os excessos. A polícia não pode ter poderes absolutos.”

“Com todo respeito, mas a senhora diz isso”, retorquiu Roberto, “porque não foi delegada lá por 1977, 78.” A conversa foi interrompida pela chegada da pizza.

2
Era necessário que um de nós ficasse acordado durante a noite, mesmo que não acontecesse nada. Sérgio foi o escolhido. Doutora Denise me autorizou a usar o sofá da sala principal. Só queria apagar por umas horas debaixo de um cobertor que eu tinha levado. Creio que meu sono foi automático porque não me lembro de ser envolvido por pensamentos. Exatamente às 4 da manhã, acordei com frio. Fui até a sala lateral e Sérgio dormia sentado no sofá com a televisão ligada num canal que já estava fora do ar. Desliguei o aparelho. Em princípio eu deveria acordá-lo, mas resolvi deixar o coitado dormir mais um pouco.

Em frente à janela da entrada, acendi um cigarro e fiquei observando a geada se formar. Já se disse que às 4 da manhã a noite é mais escura. Lembrei-me da conversa que tivemos antes da pizza e raciocinei que uma parte dos policiais, que atuava antes da Constituição de 1988 deveria, de fato, estar enfrentando dificuldades com os novos tempos. O próprio Roberto comentou, certa vez, que ficava incomodado com a impossibilidade de revistar mulheres. “Eu estou revistando a mulher, não estou apalpando como um tarado”, dizia ele.
Mas os tempos haviam mudado e eles teriam de se acostumar.

Meu olhar foi ofuscado pela luz de um automóvel que estacionou em frente à delegacia. Era a Polícia Militar e, com certeza, trazia alguma ocorrência. Os policiais retiraram do carro um indivíduo algemado e visivelmente agitado. Abri a porta e me espantei com a altura do preso. Os militares disseram que ele estava alcoolizado e fazendo arruaça nas imediações. Respondi que não tínhamos como prendê-lo na casa. No rádio do carro, outra ocorrência exigia a atenção dos policiais militares. Um deles pediu para falar com a delegada.

Doutora Denise estava dormindo. Bati na porta algumas vezes até que a luz acendeu. Expliquei o que estava acontecendo e fomos para a sala, mas os militares já não estavam mais lá. Entretanto, deixaram o preso desalgemado sob a guarda de Sérgio. De repente, ele começou a se debater com raiva, sendo contido por Roberto, Antônio e Sérgio. Foi difícil imobilizá-lo, mas aos poucos sua respiração regularizou e ele ficou aparentemente mais calmo.

A delegada se aproximou e perguntou seu nome. Nesse momento, o preso fez a última coisa que deveria ter feito: disse “puta”. Ela levou alguns segundos para entender e acreditar que estava ouvindo aquilo, mas ele repetiu a palavra várias vezes. Denise estava agachada. Calmamente se levantou e, olhando para mim, disse:

“João, vamos fazer um auto de prisão em flagrante desse cara por desacato à autoridade.” Concordei e fomos para a sala dos escrivães.

3
O preso não forneceu nenhum dado concreto sobre si. Também não portava carteira de identidade. Não respondeu nenhuma pergunta que a delegada lhe fez. Quando lhe dei os documentos para que assinasse, rasgou os papéis. Naquele momento, estávamos a sós com ele. A delegada chamou por Roberto e, de forma inesperada, o preso se atirou sobre ela envolvendo seu pescoço com as mãos (cometemos o erro de deixá-lo sem algemas).

Novamente foi necessária a força de Roberto, Antônio e Sérgio para conter o sujeito que, a esta altura, urrava como um animal raivoso. Eu e Sérgio permanecemos cuidando da delegada enquanto Roberto e Antônio levaram o preso para outro compartimento da casa. Quando ela se recuperou, fomos ver onde eles estavam.

“Cadê o preso?”, perguntou a delegada a Roberto e Antônio. Rindo, Roberto respondeu que agora o preso iria ficar calmo.

“Como assim, Roberto? Onde ele está?”, perguntou novamente Denise.

“A gente colocou o preso no porãozinho que fica embaixo da escada que vai pro primeiro andar. É onde a servente guarda os produtos de limpeza”, indicou Roberto.

Denise ficou vermelha e começou a gritar: “Vocês são loucos? Esse espaço é minúsculo! Nós podemos ser presos se souberem disso. Tirem o preso daí agora. Agora! Eu estou mandando!”

Nesse instante o preso começou a chutar a portinhola do porãozinho por dentro. Sua fúria era imensa e os chutes cada vez mais fortes. Ficamos paralisados vendo a cena sem saber o que fazer. Lascas de madeira voavam a cada pancada, até que a porta cedeu e os golpes cessaram. Ficamos esperando o preso sair do cubículo, mas Roberto escancarou a portinhola e não havia nada dentro do pequeno espaço. Ninguém.



sábado, 30 de maio de 2020

LANDAU
João Cândido Martins

1
Festa das Quatro Balanças. Esse era o nome do evento promovido pelos diretórios acadêmicos das quatro faculdades de Direito em Curitiba, nos anos 1990. Eram festas bem concorridas. Lembro especificamente dessa, em que umas mil pessoas se reuniram naquele salão, no bairro Santa Cândida. Salvo engano, foi em março de 1994, um pouco antes de eu completar 21 anos. A ideia era reunir acadêmicos de Direito da Universidade Federal, da PUC, da Faculdade Curitiba e da Faculdade Tuiuti. Meu principal objetivo era conquistar uma colega de sala de nome Lara, mas a garota era muito assediada, estava sempre na companhia de amigos. Ela tinha uma beleza desconcertante.

Chegamos a conversar rapidamente à uma da manhã. Elogiei seu vestido, contei vantagens, toquei sua mão enquanto falava. Apesar disso, não consegui beijá-la. Em dado momento ela disse que ia fazer alguma coisa e já voltava, mas eu tinha consciência de que ela não retornaria. Fiquei encostado na parede com uma lata de cerveja meio quente numa mão e um cigarro apagado na outra. Resolvi passear pelo ambiente. Em alguns pontos o lugar estava intransitável.

Conversei com alguns amigos, tomei mais uma cerveja e fumei mais um cigarro. De longe, vi que Lara conversava com um rapaz que eu conhecia da PUC. Aquilo me deixou chateado e resolvi que era o momento de ir embora. Mas, para isso, eu precisaria arranjar carona até o centro, o que era difícil naquele momento da festa. Peguei mais uma cerveja e fiquei parado numa espécie de hall do grande salão. O espaço estava semi-iluminado e praticamente vazio. Quando eu ia acender outro cigarro, fui abordado por um cara que pediu fogo. Acendi meu cigarro e passei a ele o isqueiro. Alguém acendeu a luz do hall iluminando nossos rostos e o cara, ao devolver o isqueiro, disse:

“Martins? João Martins?”

Martins era meu nome de guerra no Colégio Militar. Olhei para ele e o reconheci no ato. Era Frederico, um ex-colega daquele período. Frederico das risadas maliciosas, das insubordinações contra o formalismo militar. Ele parecia estar numa constante busca pelo que é justo. Ao mesmo tempo era dono de um espírito feroz e raivoso, o que tornava seus atos confusos. Depois do Colégio Militar, a última notícia que tive a seu respeito foi que ele teria enfrentado problemas com a polícia, mas eu nunca soube os detalhes.

Agora ali estava, cheio de fios de cabelo branco. Perguntou de mim, ficou entusiasmado com nosso encontro casual.

“Pô Martins, quanto tempo, você não mudou quase nada.”

Falamos de banalidades por alguns instantes até que ele disse que iria a outra festa no outro lado da cidade, na Vila Hauer.

“Quer ir junto?”, perguntou ele.

A ideia chegou a me animar, mas quando pensei em mim mesmo morrendo de sono às sete da manhã no terminal de ônibus da Vila Hauer, resolvi ir direto para casa. Perguntei se ele poderia me dar uma carona até o centro.
“Claro, Martins. Eu te levo”.

No caminho até o estacionamento, falou sobre seu veículo.
“Você já andou num Landau? Tem detalhes em jacarandá na parte interna das portas e no painel”, mostrou-me orgulhoso quando chegamos.“Esse Landau é uma peça de colecionador. Isso que é carro, não essas latas que vendem hoje.”

Frederico falava do carro como se referisse a um filho. Fiquei até meio sem jeito de pedir para fumar ali, mas como ele acendeu um cigarro, também acendi um. Quando ele estava prestes a engatar a ré para sairmos, o carro foi cercado por uns sujeitos que falavam todos ao mesmo tempo.
Um deles parou ao lado da janela de Frederico. Segurando uma corrente de ferro, perguntou: “Vocês são um casal de bonecas? Desçam do carro, agora.”

Frederico abriu a porta já com um revólver 38 na mão e atirou nos pés do sujeito, que caiu gritando de dor. Os demais se afastaram imediatamente enquanto Frederico apontava a arma para cada um deles. Quando retornou ao carro ele disse:

“Cara, detesto esses nazistas.”

2
Nem chegamos a comentar o episódio. Frederico queria falar sobre o passado. Enquanto evocava os nomes de antigos colegas do Colégio Militar como se os tivesse visto no dia anterior, ele acelerava cada vez mais seu Landau. Estávamos na via rápida que liga Santa Cândida ao centro, ou seja, havia muitas possibilidades de ele testar seu carro até o limite, e foi o que fez. Em certos momentos chegamos a 120 km por hora. Naquele tempo não havia radares ou câmeras. Achei que iríamos voar para fora da pista. Não reclamei. O carro era dele, eu só estava de carona. De qualquer forma me senti aliviado quando Frederico estacionou na Praça Tiradentes. O local estava vazio.

“Martins, muito legal te ver. Não quer mesmo ir à Vila Hauer? Tá cheio de mulher lá, cara, eu já fui nessa festa umas três vezes”, voltou a convidar.

Agradeci e disse que estava cansado. Trocamos telefones e ele se foi. Andei em direção ao meu ponto de ônibus. O silêncio só era cortado por uma buzina distante ou pelo barulho de algum ônibus passando nas proximidades. Acendi um cigarro e fiquei imaginando quantas milhares de pessoas transitaram por aquela praça desde a fundação de Curitiba. E naquele momento ela era exclusivamente minha. Nem um transeunte, nem táxis, nada. Nem mesmo vento. Foi quando um carro parou em frente ao ponto onde eu aguardava meu ônibus madrugueiro.

“Com licença, você pode ajudar?”, perguntou uma moça loira de rosto bonito.
Apaguei o cigarro e me aproximei. Ela estava sentada na parte da frente do carro. Só depois percebi que no banco de trás havia dois caras. Comecei a achar a situação suspeita.

“Sabe o que acontece...”, ela disse com cautela.

No mesmo instante, o rapaz do banco traseiro apontou alguma coisa em minha direção. Só tive tempo de pensar em como fui idiota, mas do objeto saiu apenas uma espuma branca e densa que me envolveu. Era um extintor de incêndio.

Não cheguei sequer a xingá-los, pois o carro arrancou com seus ocupantes às gargalhadas. Limpei minha roupa, encostei novamente no ponto de ônibus e acendi outro cigarro. Estava agradecido por estar vivo. Ainda havia meia hora até o ônibus chegar. Prometi a mim mesmo que quando fosse rico teria um Landau. 



LENINHA
João Cândido Martins

1
Comecei a nadar em 1977, aos 4 anos. Participei de uma das primeiras experiências feitas em Curitiba com crianças dessa idade em piscinas grandes. Naquele momento as escolas de natação não tinham piscinas infantis. Seis anos depois, com 10 anos, já me considerava um veterano. De modo geral, apresentava uma boa performance em curtas e longas distâncias. Já estava apto a competir. Naquele tempo, minha mãe me levava para as aulas e, na maior parte das vezes, permanecia para assistir. Eu me esforçava para impressioná-la e, a cada aula, obtinha novos progressos. Claro que minha vida não se resumia a isso, mas aos 10 anos eu estava realmente empolgado com a ideia de ser bom em alguma coisa.

Houve um momento em que minha mãe precisou trabalhar na parte da manhã, então passei a ir sozinho até a escola de natação. Após algumas quadras eu encontrava o conforto da água aquecida pelas caldeiras que ficavam no fundo da escola. Naquele horário, a turma se resumia a mim e a outro menino que faltava constantemente. Isso significava que quase sempre eu podia escolher uma raia para nadar, ficando o resto da piscina vazio. Depois de umas semanas, o outro menino desistiu definitivamente e fiquei por um bom tempo com a piscina só para mim.

Um dia, ao chegar, constatei que a piscina estava coberta por uma lona preta. Só uma raia estava descoberta. Era para a água não perder o calor, explicou o professor. Aquilo não me agradou e, ao entrar na piscina, meu estranhamento foi multiplicado. Por baixo do toldo preto era possível avistar apenas mais duas raias e, depois, escuridão total. Eu nadava e ao olhar para o fundo escuro sentia uma verdadeira opressão. Hoje, aos 47 anos, não sei dizer se foi por medo do escuro ou outro temor infantil, mas um dia, olhando em direção à escuridão, eu vi dois olhos me fitando. Animalescos, eles emanavam uma fúria insana. Saí da piscina.

Expliquei ao professor que havia alguma coisa debaixo da lona. Ele estranhou e perguntou o que seria. Eu respondi que não sabia, mas que achava ser algum bicho.

“Como assim, João? Um bicho?”, ele perguntou.

Fomos até a piscina e ele retirou o toldo. Não havia nada. Ficamos olhando a piscina em silêncio. O professor foi compreensivo. Disse que quando era criança também tinha medo do escuro, mas que eu não precisava me preocupar com nada ali na escola. E acrescentou:

“Você não tem por que ter medo. Vai ganhar companhia. Uma nova coleguinha que começa na terça que vem.”

2
A ideia de ter de dividir uma raia da piscina me incomodava, mas ao conhecer Leninha tudo mudou. Apesar de ter somente 10 anos como eu, irradiava uma personalidade forte, com traços expressivos que me chamaram a atenção. Tinha humor. Quando nadávamos na mesma raia ela dizia:

“João, me segue”.

E eu ia. Mas havia também momentos em que, nadando na mesma raia, cruzávamos no meio da piscina, vindos de lados opostos. Foi numa situação dessas que eu senti seus dedos passarem em meu corpo. Foi como levar um choque elétrico de surpresa. Na volta, ela repetiu o toque e senti um arrepio dentro da barriga, uma sensação inédita para mim. Nessa época, eu subia em árvores, assistia desenhos na TV, não tinha a menor noção do que seria sensualidade ou sexo.

Esse jogo era muito discreto e o professor nunca desconfiou de nada. Até o dia em que ficamos sozinhos na raia. Ela disse “João, me segue” e entrou por baixo do toldo nadando em direção à parte escura. Fiquei paralisado. Ela foi até a outra extremidade e voltou.

“Qual o problema?”, perguntou. “Você tem medo?”

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o professor retornou e tivemos de voltar à aula. Naquele dia, cruzamos diversas vezes no meio da piscina, mas em nenhuma delas senti seu contato.

Os dias se passaram e notei que Leninha se distanciou. Eu não sabia o que pensar, tinha apenas dez anos e só queria a nossa cumplicidade de volta, ansiava por isso. Só pensava nisso. Numa manhã, o professor passou os exercícios e se retirou para resolver alguma coisa, nos deixando sozinhos. Ela não perdeu tempo e foi em direção à escuridão. Sem hesitar, fui atrás dela. Ignorei o medo: estava decidido a segui-la. Chegamos ao fundo escuro praticamente juntos. Eu não conseguia vê-la direito, mas num gesto totalmente inesperado Leninha me beijou no rosto. Aquilo me pegou de surpresa, e levei alguns segundos para me localizar.

Nesse meio tempo, ela já estava nadando de volta à parte clara. Quando preparei o impulso para ir em direção a ela, senti que algo tocava meu braço. Olhei para o lado e ali estavam os dois olhos animalescos, a menos de um metro de mim. Gritei de medo embaixo da água e, no mesmo instante, o toldo negro foi levantado pelo professor e outros funcionários da escola. Leninha saía do espaço da piscina puxada por sua mãe. Foi a última vez que a vi.




sexta-feira, 29 de maio de 2020

ABERTURA RUY LÓPEZ
João Cândido Martins

1
Quando eu era criança, meu pai me ensinou os movimentos básicos do xadrez. Eu jogava com ele, com meu primo e, eventualmente, com meu avô. Em 1987, aos 14 anos, me senti confiante para fazer a inscrição na equipe de xadrez do Colégio Militar de Curitiba. Cheguei a participar de um pequeno campeonato promovido pela prefeitura. O evento foi no antigo CEFET (hoje UTFPR). Eu pertencia à categoria mirim, que compreendia as crianças entre 12 e 15 anos. Devo dizer que meu primeiro oponente não representou maiores dificuldades e o segundo também não foi difícil. Mas no terceiro, me compliquei. O cara me pegou numa sequência de jogadas que não havia como escapar. Tomei xeque-mate em coisa de 12 movimentos.

O mais interessante é que eu conhecia o outro jogador. Era Adriano, um garoto que morava a uma quadra da minha casa em Santa Quitéria, e com quem eu tinha pouco contato. Depois de acabar comigo, ele venceu mais dois e estava indo para as finais quando esbarrou com alguém que sabia mais que ele.

Como morávamos na mesma rua, resolvemos voltar juntos de ônibus. Ele explicou que sua vitória sobre mim se devia ao emprego da variação Zaitsev, uma sequência de movimentos que se caracterizava por ser uma alternativa à famosa abertura Ruy López. Eu escutava tudo aquilo abismado. Já tinha ouvido falar dessas estratégias no clube de xadrez do Colégio Militar, mas nunca me aprofundei. Nunca fiz um estudo sistemático do assunto. Jogava praticamente por intuição. Adriano me mostrava um novo mundo de possibilidades dentro do xadrez. Ele prometeu que iria me explicar todas as aberturas que conhecia.

Em certo momento, o ônibus quebrou na altura do bairro Batel e tivemos de descer. Podíamos esperar o próximo ônibus e entrar sem pagar nada, mas preferimos voltar até Santa Quitéria andando e conversando.

Assim como eu, Adriano era um aficionado pelos heróis dos quadrinhos Marvel. Falamos sobre Galactus, a força cósmica que devora tudo que encontra pela frente. Adriano conhecia bem o universo dos comics infantis, mas disse que ultimamente estava lendo também as edições de Kripta, do seu irmão mais velho. Uma dessas edições, que ele também prometeu me mostrar, era especializada em histórias eróticas.

No bairro Seminário, próximo ao Colégio Paranaense, nos sentamos numa pracinha e tomamos sorvete, enquanto conversávamos a respeito das meninas de Santa Quitéria. Ele preferia Thais, cabelos negros, boca carnuda, bonita mesmo. Meu voto foi para Lívia. Loira, baixinha, olhos azuis. “Mas ela é mais velha que você”, reclamou Adriano. “Ela tem 15 e eu, 14. É só um ano a mais”, respondi. Demos risada. Aquilo não fazia diferença.

De passagem pelos fundos do Jardim Los Angeles, já nas proximidades de Santa Quitéria, nos deparamos com um mato cerrado no entorno das mansões. Segundo Adriano, o lugar era conhecido como Floresta do Taborda. Para chegar ao ponto mais alto, era necessário escalar uma parede. Lá em cima, subimos mais uma elevação íngreme de terra e sentamos no topo, escondidos pela vegetação do local.

“Foi aqui que eu trouxe a Thais”, disse ele.

Fiquei espantado: “Você trouxe ela aqui e me trouxe também... tá me estranhando, Adriano?”

Ele deu risada e disse que não tinha nada a ver. Explicou que tinha me levado ali para ver o pôr do sol.

“Quando venho com as gurias aqui, nunca tenho tempo de ver a natureza”, disse ele protegendo a vista com a mão, enquanto mirava a estrela que dava um tom laranja-avermelhado às nuvens do fim do dia.

2
Já era noite quando chegamos à casa de Adriano. Ele pediu para que eu esperasse porque queria me emprestar um manual de xadrez que continha algumas jogadas em esquemas gráficos. Fiquei parado junto ao portão enquanto ele se aproximou da entrada da casa. A porta se abriu e um homem o segurou violentamente pelo braço, puxando-o com força para dentro.

“Isso são horas, moleque?”, perguntou o homem.

Antes de fechar a porta, vi que deu um tapa em Adriano e o menino foi ao chão. Não aguentei e saí correndo. Nunca tinha presenciado nada parecido. Talvez em filmes, mas assistir uma cena dessas ao vivo me atingiu em cheio no estômago.

Quando cheguei em casa, encontrei um bilhete dos meus pais dizendo que tinham ido ao mercado. Eles voltaram uma hora depois. Relatei o que acontecera e perguntei ao meu pai se ele, como delegado de polícia, poderia fazer algo.

“Vamos primeiro ver o que está acontecendo”, disse ele.

Uma viatura da polícia militar estava parada à porta da casa de Adriano. Meu pai se aproximou, identificando-se como delegado. O PM contou que uma vizinha fez a denúncia. O sujeito estava bêbado há horas. Agrediu toda a família e estava prestes a brigar com os vizinhos quando veio a polícia e encontrou as crianças em estado deplorável. Ele foi detido.

Três meses depois, eu soube que a mãe de Adriano fugiu, desapareceu, deixando o garoto e seu irmão menor à mercê do mundo. Ambos foram parar em orfanatos diferentes. Pedi a meu pai que descobrisse a localização de Adriano e, com alguma dificuldade, ele conseguiu. Alguns dias depois, fomos ao local, em São José dos Pinhais.

Adriano trajava o uniforme cinza da instituição, mas seu rosto transmitia confiança. Mesmo com um roxo ao lado do olho esquerdo.

“O que foi isso?”, perguntei.

“Isso? Não foi nada. Só um cara que insiste todo dia em pegar minha sobremesa. Mas eu gosto de sobremesa.”

Fomos para a biblioteca do orfanato. O local estava vazio àquela hora. Sentamos à mesa de xadrez, dispusemos as peças e ele disse:

“Vamos começar pela abertura Ruy López, que é a mais tradicional. Depois partimos pra outras”.


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Foto 1: No Colégio Militar de Curitiba fui velocista (100 metros rasos) e fiz parte da equipe de xadrez
Foto 2: A Abertura Ruy López
Foto 3: Mato no entorno do Jardim Los Angeles, em Curitiba, entre o Seminário e Santa Quitéria. O lugar era conhecido como Floresta do Taborda

















UMA NOITE PELOS BARES DE CURITIBA EM 1995
João Cândido Martins

1
Em 1995, o começo do verão em Curitiba foi abrupto. Após uma longa semana de vento frio e chuva intermitente, o sol despontou implacável no começo da tarde da sexta-feira. Eu tinha aula à noite na Faculdade de Direito de Curitiba até às 10 e meia, mas estava disperso e só pensava em ir pro Bar do DCE da Federal, no prédio ao lado da Reitoria. Embora eu gostasse da companhia e das festas do pessoal do Direito, costumava frequentar com regularidade os ambientes da galera de Humanas da Federal, principalmente o Bar do DCE, que nos anos 90 foi um ponto de efervescência cultural. Havia muita ideia, muita música e muito texto rolando. Os caras tinham até uma rádio-pirata que só tocava sons alternativos. O bar ficava num pequeno espaço com um balcão simples e uma ou outra cadeira. Só tinha cerveja pra vender. Tudo bem, porque ninguém ia ao Bar do DCE pra comer coxinha.

Havia apresentações musicais, como as do meu amigo Allan Oliveira, que executava um repertório MPB ao violão. Desde o começo, o bar adotou uma inclinação musical brasileira. Eventualmente até rolava alguma coisa rock, mas, em geral, bandas brasileiras dos anos 70 como Mutantes, Secos & Molhados, Novos Baianos, Tim Maia, etc. Essa tendência se manteve quando, anos depois, o lugar foi transferido para um casarão na rua 13 de Maio. Foi no Bar do DCE da Federal ao lado da Reitoria que assisti algumas das primeiras apresentações do Ariel Mujica que, alguns anos depois, fundaria com seus pais o grupo El Merekumbé, especializado em música cubana.

A segunda aula na faculdade após o intervalo seria de Direito Penal. Teoria do Crime. Escola Alemã. Von Liszt. Subi as escadas da faculdade meio a contragosto, com trechos de "Cowgirl in the Sand", do Neil Young, na mente. Quando cheguei à sala, só encontrei o colega Drahomiro, que estava de saída. Perguntei onde estava todo mundo e ele disse que a aula tinha sido cancelada a pedido do professor.

Fomos conversando até a Praça Tiradentes. Ele era um cara inteligente e estava sempre de bom humor. Quem o conheceu sabe disso. Morreu jovem, alguns anos depois da formatura. Naquela noite, ele me censurou sobre o uso do cigarro. Disse que leu sobre uma pesquisa feita na Suécia com três ratos de laboratório. O primeiro foi viciado em cocaína, o segundo em heroína e o terceiro em nicotina. Eles foram deixados sem comer por um dia e meio, até que tiveram à sua disposição, comida e uma dose da sua droga. Segundo Drahomiro, os ratos viciados em heroína e cocaína foram direto na comida, mas o terceiro rato, tabagista, avançou com fúria no cigarro.

Quando chegamos ao seu ponto de ônibus, ele reforçou a recomendação para que eu parasse de fumar. "Você tem quantos anos? 21? 22? Pare com esse negócio agora", disse ele de forma incisiva. Eu sabia que ele tinha razão, mas ao virar a esquina em direção ao Largo da Ordem, acendi o primeiro de muitos cigarros que fumaria naquela noite. Encontrei por acaso meu amigo Lissandro Dino Leite. Ele tinha ingressos pro show que haveria mais tarde com o baterista Robertinho Silva no Hermes, um bar que ficava numa casa antiga, na esquina da Avenida Iguaçu com a Bento Viana, lá no bairro Água Verde.

Não sei como é hoje, mas nos anos 90, essa casa contava com dois ambientes, sendo que no subsolo aconteciam os shows. Assistir Robertinho Silva ao vivo era irrecusável. O cara tocou no disco "Corações Futuristas" (74), do Egberto Gismonti, tocou com um monte de gente importante em discos clássicos. Eu tinha de ir lá conferir o som. Desisti de ir ao DCE e, como estava cedo, resolvemos matar tempo tomando cerveja em algum lugar ali mesmo no Largo. Havia muito movimento, mas na Trajano Reis, encontramos uma mesa vazia em frente ao Bar do Matias. Sentamos e ficamos falando de música, etc. Matias era, e com certeza ainda deve ser, um sujeito muito tranquilo, apreciador de discos de vinil. Pelas fotos que vi do bar na atualidade, parece que o ambiente foi ampliado, mas em 95 o lugar não era dos maiores. Objetos antigos decoravam o local, tendência que foi adotada por "n" bares descolados depois dos anos 2000.

Dino conhecia bem o Matias, que conversou conosco por alguns minutos. Na mesa ao lado, não pude deixar de perceber que uma menina me olhava de soslaio. Toda vez que eu tentava encará-la, ela desviava os olhos. Matias comentava que a moda do CD era algo passageiro, coisa de momento que não iria durar muito. "Vocês vão ver", disse ele, "daqui a pouco vai estar tudo no próprio computador, nem vai mais ter nada dessa coisa de CD. Nem vinil, capa, vitrola, vai virar tudo antiguidade". Quando Matias terminou a frase, olhei rapidamente em direção à menina e consegui uma breve troca de olhares seguida de um sorriso.

2
Pensei que teria ter de mudar de planos pela segunda vez. Não acompanharia o Dino até a Avenida Iguaçu. Iria com ela pra qualquer lugar. Uma viatura da polícia parou à nossa frente e os policias desceram do veículo dizendo: "Todo mundo com a mão na parede, revista de rotina". Eu e Dino não portávamos nada ilegal, mas um rapaz que estava sentado na entrada do bar foi arrastado pelos cabelos até a viatura. Eles foram embora e permanecemos todos em pé durante um tempo, até que Dino perguntou: "Por que a gente tá em pé?" Sentamos e pedimos mais uma ao Matias.

Eu e a menina agora trocávamos olhares abertamente. Eu ia abordá-la, quando um cara bem jovem virou a equina correndo e veio em nossa direção. Ele entrou com alvoroço no Bar do Matias e ficamos olhando sem entender. Alguns segundos depois, uma pequena multidão também dobrou a esquina e um deles gritou: "o cara entrou naquele bar", apontando pro Bar do Matias. A turba começou a correr e nós só tivemos tempo de entrar o mais rapidamente possível. Matias fechou a porta e, em poucos segundos, havia um monte de gente gritando e batendo na entrada. Um vidro foi quebrado. Eu e Dino nos olhamos e, sem pensar, buscamos refúgio no único banheiro do local, um espaço minúsculo onde entraram todas as pessoas que estavam ali, inclusive o Matias.

Oito corpos se apertavam no cubículo e era possível ouvir o clamor da multidão querendo invadir o bar. Alguém disse: "Matias, vai lá e conversa com os caras". Em seguida, outro barulho de vidro quebrando e mais vozes furiosas. Dino olhou pro sujeito que estava sendo perseguido e perguntou o que ele tinha feito pro caras estarem tão indignados. O rapaz tossiu e disse que tinha tentado sair de um bar sem pagar a conta, mas na tentativa, esbarrou em várias mesas, o que provocou uma briga e ele acabou quebrando uma garrafa na cara de um sujeito que não tinha nada a ver com a história. Daí ele saiu correndo e, quando viu, tinha uma multidão atrás dele.

Por algum acaso do destino, ou coisa parecida, quando entrei no banheiro, encostei justamente na tal menina com quem há pouco trocava olhares. Nossos corpos estavam totalmente em contato e, enquanto todos se olhavam em pânico com o barulho da turba do lado de fora, eu sorria e tocava sua cintura. Alguém acendeu um baseado e Matias se invocou: "Ô mermão, apaga essa merda, quer me complicar a vida?" O cara que acendeu o cigarro jamaicano não se abalou e, soltando uma baforada que preencheu o minúsculo ambiente, disse que Matias tinha problemas mais importantes pra resolver naquele momento. Não resisti e dei um pequeno beijo na nuca da menina que se encolheu dando uma risadinha. Dino me olhou e disse: "João, se liga cara, a gente vai apanhar até morrer aqui".

O sujeito do baseado deu outra baforada e confesso que fiquei um pouco tonto com aquilo. Matias abriu a porta do banheiro e saiu. Ainda era possível ouvir algumas vozes exaltadas vindo do exterior. Alguém fechou novamente a porta do banheiro e ficamos todos nos olhando em silêncio. A amiga da menina em quem eu estava encostado ligou um walk-man. A voz de Janis Joplin dominou o pequeno espaço. Nesse momento, eu já estava com os dois braços em torno da garota e nem me lembrava mais do show do Robertinho Silva. Do nada, alguém revelou que estava segurando uma cerveja quase cheia. A garrafa circulou entre todos.

Matias abriu a porta do banheiro e saímos, um por um do cubículo. Janis cessou seu canto e, do lado de fora, já não vinham mais os protestos. Não havia mais ninguém em frente ao bar. O cara que estava sendo perseguido se mandou tão rápido quanto chegou. Dino perguntou se eu ainda ia ao show do Robertinho Silva. Respondi que iria ficar com a Sandra (esse era o nome da menina).

3
Eu e ela fomos andando de mãos dadas até o Bar Dolores Nervosa, na Vicente Machado. Era um local onde musicalmente rolava de tudo, de Madonna a Miles Davis, passando por Chico Buarque e grupos dos anos 80/90. Quando chegamos, havia algumas pessoas na porta, entre elas, meu amigo Marco Farracha Guedes. Estava acontecendo uma festa. O bar estava lotado e eles não deixavam entrar mais ninguém. Tomamos alguns copinhos de cachaça com guaco no boteco que ficava no térreo do Dolores (na frente do qual, um tempo depois, um cara seria morto a tiros). Na TV, a Rede Globo reprisava o filme "Ensina-me a Viver", que era interrompido constantemente por flashs de um jogo de vôlei.

Marco estava indignado por ter sido impedido de ingressar no Dolores e resolveu escalar o muro lateral, entrando no bar pela janela. Alguns segundos depois, a porta do estabelecimento se abriu com violência e achei que Marco seria empurrado pra fora do lugar, mas foi ele quem jogou dois caras lá de dentro escada abaixo. Eu sabia que minha obrigação como amigo era ajudá-lo, mas Sandra apertou minha mão e saiu correndo em direção a umas manilhas que estavam encostadas junto a um trator. A Vicente Machado passava por obras. Entramos numa daquelas peças de concreto e ficamos algum tempo ali, não sei dizer quanto.

Por volta de umas cinco e meia, fomos à Rua 24 Horas, que estava cheia de gente. Comemos pastel no fim da rua e ficamos conversando sentados na calçada até umas 9 horas, quando ela se despediu e eu segui meu rumo em direção ao ponto do ônibus Savóia.

Sentei num banco do fundo e minha cabeça foi preenchida pelos acordes iniciais de "We Used to Know", do Jethro Tull. A música ia e vinha até que senti uma mão me sacudindo. Era o motorista do ônibus me avisando que estávamos no ponto final. Eu havia passado do meu ponto e teria de andar várias quadras pra chegar em casa. Desci do ônibus, esfreguei meu rosto com as duas mãos, espreguicei e acendi um cigarro. O motorista, que eu conhecia de vista, disse: "Vá dormir rapaz, você tá com cara de quem tá precisando". Pus as mãos nos bolsos da calça e, na companhia de um vira-latas de olhar sábio, iniciei o longo trajeto que me separava da minha cama.


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Neil Young - Cowgirl in the Sand (1969)
https://www.youtube.com/watch?v=SNl13t9ZtmA

Janis Joplin - Half Moon (1971)
https://www.youtube.com/watch?v=yyHhPTfT2rI

Jethro Tull - We Used to Know (1969)
https://www.youtube.com/watch?v=VAnh1waFPeY

Egberto Gismonti - Dança das Cabeças, do disco Corações Futuristas (1976), com Robertinho Silva - bateria
https://www.youtube.com/watch?v=vobUqH3OLvI